Violação masculina usada na Líbia como instrumento de guerra
13 Novembro 2017
      
Violação masculina usada na Líbia como instrumento de guerra

Dezenas de testemunhos e de vídeos revelam que estas práticas têm sido usadas por diversas facções políticas e milícias.

FONTE : PÚBLICO


A violação masculina é usada na Líbia, de forma sistemática, como um instrumento de guerra e de imposição do domínio político por facções rivais, revelam os testemunhos reunidos por uma organização e uma realizadora francesa.

Cécile Allegra, que está a preparar um documentário para o canal de televisão ARTE, publica no Le Monde um relato em dois capítulos da sua investigação, em colaboração com a organização não governamental We Are Not Weapons of War. Revela relatos devastadores de vítimas, homens que foram sodomizados com armas, lança-rockets e outros objectos.


"Este tipo de violação sempre existiu", disse Céline Bardet, especialista em justiça internacional e fundadora da ONG. "Mas na década de 1990, durante o regime do coronel Khadafi, sofreu uma mutação que passou despercebida fora da Líbia", sublinhou. "Tornou-se uma arma de guerra de primeira linha: barata, não produz cadáveres, mas pode destruir uma nação durante gerações. É o crime perfeito."

Estes actos têm servido para humilhar e neutralizar os opositores num país dominado por milícias e onde a violação masculina é um tabu tão forte que dificilmente as vítimas voltam a integrar-se na sociedade. Os homens violados, apesar de viverem em pânico - e de terem sofrido ferimentos duradouros - , recusam-se a ir ao médico. Por vergonha.

"Isolam-te para te subjugar...'subjugar os homens' é o que eles dizem. Para que fiques esmagado, para que nunca mais levantes a cabeça", relatou Ahmed, raptado por uma milícia em 2012, acabado de sair da terrível prisão de Tomina, nos arredores de Misrata, onde estavam mais 450 homens. Todos os dias, os guardas fixam um cabo de vassoura na parede. "Se queres comer, tens de baixar as calças, e recuar sobre o cabo. Não podes afastar-te até o carcereiro ver sangue a correr. Ninguém escapa", contou. Os carcereiros filmam tudo, com os telemóveis, e ameaçam pôr no YouTube.

Um dos vídeos que a realizadora Cécile Allegra viu (e que não pôde ser verificado de forma independente), mostra um jovem sentado na areia, aterrado. Vê-se o braço de alguém, vestido com um uniforme militar, com um lança-rockets, que levanta o jovem, lhe baixa as calças e aproxima arma, carregada, das nádegas. A imagem é cortada então.

Ahmed contou ainda que um dos prisioneiros, um migrante negro, todas as noites era atirado para uma das celas e os guardas davam ordens aos restantes prisioneiros para o violarem: “Violem este homem ou considerem-se mortos”.

O regime de Muammar Khadafi foi acusado de usar a violação como um instrumento de guerra durante a revolução que depôs o líder, em 2011, mas até agora não havia provas conclusivas dessas práticas.

As mulheres não têm estado imunes a estas práticas. A sul de Trípoli, capital da Líbia, foram recolhidos relatos de famílias inteiras violadas por uma milícia de Misrata.

O centro da investigação é um pequeno escritório na capital da Tunísia, onde Ramadan, um ex-procurador de Bengazi, outra cidade líbia, e o seu amigo Imed e Imed, passaram os últimos três anos a coligir relatos e provas sobre o recurso à violação masculina na Líbia. O objectivo final é coligir dados que sejam aceites pelo Tribunal Penal Internacional, para constituir provas de crimes de guerra.

Em 2016, o procurador do Tribuna Penal Internacional (TPI), Fatou Bensouda, pediu mais fundos ao Conselho de Segurança da ONU, para alargar as investigações sobre crimes de guerra da Líbia.
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A 15 de Agosto, o TPI emitiu um mandado de prisão internacional para Mahmoud Al-Werfalli, um general acusado de crimes de guerra, aliado a Khalifa Haftar, o homem que controlou o leste da Líbia durante anos. Pela primeira vez, os vídeos publicados na Internet que mostram execuções sumárias alegadamente cometidas por Werfalli foram admitidos pelo TPI como prova.

Em Tunis, o grupo que lidera a investigação sobre as violações espera que os testemunhos vídeo que têm vindo a recolher possam ser legalmente válidos caso os responsáveis pelas violações sejam acusados de crimes de guerra.


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