Conservadora franca sobre o aborto
22 Janeiro 2018
      
A resposta à questão do aborto depende inteiramente de duas perguntas.

A primeira é: O feto no ventre da mãe é um ser humano ou não?

Se n√£o √©, ent√£o ele tem de se tornar um ser humano em algum momento da gesta√ß√£o. H√° duas classes de imbecis que apostam nesta hip√≥tese absurda. Os imbecis espiritualistas acreditam que isso acontece no instante em que a alma ‚Äúentra‚ÄĚ no corpo. Mas a alma n√£o √© uma ‚Äúcoisa‚ÄĚ alheia ao corpo: √© a pr√≥pria vida do corpo. Para que ela entrasse num corpo j√° existente seria preciso que o corpo, at√© esse instante, n√£o tivesse vida. Neste caso, √© preciso admitir que o feto, nas primeiras semanas depois de gerado, est√° mortinho da silva. J√° viu coisa mais doida?

Os imbecis materialistas alegam que um feto de tr√™s meses n√£o se distingue, na apar√™ncia, de um feto de macaco ‚ÄĒ um argumento que √© pura macaquice. Pablo Picasso, bem examinado, √© mais parecido com o homem de Neanderthal do que com Tom Cruise.

Toda tentativa de provar que o feto não é humano esbarra em contrassensos intransponíveis. Mas negar que o outro seja humano é a mais velha desculpa de quem deseja matá-lo. A ciência nazista provava, com argumentos parecidos, que os judeus não eram gente.

Afastada a hipótese maluca de que o feto não seja humano, surge então a segunda pergunta decisiva: Existe alguma diferença substancial entre matar um ser humano no ventre da mãe e matá-lo depois que saiu?

Os aborteiros procuram enganar as mulheres com lisonjas, assegurando que tudo o que est√° dentro do corpo delas √© delas, e que podem fazer o que bem entendem com o que √© delas. Este racioc√≠nio subentende que o feto √© um √≥rg√£o do corpo da mulher, e n√£o um ser humano independente. Mas, mesmo que o feto fosse um √≥rg√£o, que √© um √≥rg√£o? √Č, por defini√ß√£o, algo que n√£o pode ser retirado sem dano para o corpo. Est√£o como alegar, em apoio do direito de retirar o feto, o argumento de que √© um √≥rg√£o? Se √© um √≥rg√£o, retir√°-lo √© mutilar o corpo. E, uma vez aceito o direito √† automutila√ß√£o, seria uma odiosa discrimina√ß√£o conced√™-lo a quem desejasse cortar o ded√£o do pr√≥prio p√© e neg√°-lo a quem pretendesse algo mais requintado, como cortar a pr√≥pria cabe√ßa, ou cortar o restante do corpo e sair por a√≠ s√≥ com a cabe√ßa flutuando no ar.

Exclu√≠da, por absurda, a hip√≥tese de que o feto seja um √≥rg√£o, resta saber se, mesmo sendo alguma outra coisa, ele pertence √† mulher que o carrega no ventre. A resposta √© n√£o, porque n√£o √© feito s√≥ de √≥vulo, mas tamb√©m de esperma. O esperma n√£o √© produzido pelo corpo da m√£e, mas pelo do pai, que apenas o deposita no corpo da m√£e. A m√£e n√£o √© portanto dona do feto inteiro, mas apenas de uma parte; da outra parte, que veio do pai, √© apenas deposit√°ria ‚ÄĒ e tem tanto direito de jogar o feto no lixo quanto um banco tem o direito de jogar no lixo o dinheiro dos nossos dep√≥sitos.

A rejeição categórica do direito ao aborto decorre de evidências cristalinas, que só uma mentalidade torpe pode negar. Mas o mal não está nas mulheres que abortam, enganadas pelo desespero. Está no defensor do aborto, que com fala mansa pretende induzi-las a tornar-se homicidas. Caso aceitem a proposta, das duas uma: ou estarão criando ainda mais um motivo de culpa, sofrimento e desespero, ou então terão de sufocar no seu coração todo sentimento de culpa, tornando-se frias e desumanas como seu pérfido conselheiro.

Fa√ßo um apelo √† mulher pobre e desesperada, que tem medo de p√īr um filho no mundo: n√£o creia nesses falsos amigos. Quando ouvir um deputado, um senador, um intelectual bem situado na vida dizer que defende o aborto porque tem pena das mulheres pobres, pergunte a ele:

‚ÄĒ Mas, doutor, se o senhor √© t√£o bom e generoso que se oferece para ajudar a matar o meu filhinho, por que n√£o pode me dar algum dinheiro para ajud√°-lo a viver?





Por Olavo de Carvalho


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