OMISSÃO DO PASSADO (Editorial publicado na última edição do semanário Agora, aos 6 de Abril de 2016)
13 Abril 2018
      
OMISSÃO DO PASSADO
(Editorial publicado na última edição do semanário Agora, aos 6 de Abril de 2016)

Respeitando o princípio de que tudo tem timing próprio, há muito que percebi que há, de facto, alguma coisa que ninguém sabe explicar muito bem o que é, mas que se encarrega de trazer ao de cima questões por vezes ‘esquecidas’ relacionadas com o nosso passado e presente.

Tenha ela a configuração de um imaginário Deus em quem muitos não se revêem, ou a concepção imprevisível do que é o Destino. Provavelmente, porque há alguma força superior que volta e meia nos quer recordar, como diz o adágio, que “cá se faz, cá se paga”, ou na melhor das hipóteses, para que saibamos corrigir as nossas próprias falhas.

Daí que, não pode constituir só coincidência que a leitura da sentença dos ‘Revús’ tenha acontecido na véspera do 57.º aniversário de um dos marcos da luta contra o colonialismo. Refiro-me ao “Processo dos 50”. Por essa altura (de 29 de Março a 24 de Agosto de 1959), Luanda vivia agitada, uma vez que a P.I.D.E. desencadeou uma vasta onda de detenções que culminou com o julgamento de 50 nacionalistas angolanos acusados de, por meio de acções clandestinas, conspirarem contra o regime colonial português, tal como agora os jovens ‘Revús’.

A história registou que esse julgamento despertou a atenção dos angolanos (e do mundo), particularmente dos jovens esclarecidos pelos ideais de liberdade, direitos e garantias, um pouco também por influência revolucionária que recebiam de outras paragens. Tal como agora os jovens ‘Revús’.

Daquele a estes tempos, vai um longo percurso de 57 anos, rasgado, entretanto, até às entranhas, por uma guerra sangrenta que não fez sentido, e que terminou exactamente, não pode ser também só mera coincidência, numa data que, como o julgamento dos ‘Revús’ e dos 50 nacionalistas, se associa ao mês de Março. Daí para cá o que mudou então? Pelos vistos apenas a cor do opressor, do juiz, da acusação e da defesa.

O nacionalista Sócrates Dáskalos, já falecido, na sua obra o ‘Testemunho para a História de Angola – do Huambo ao Huambo’, lançado em 2000, cita o alerta da historiadora Maria Fátima Bonifácio: “Se esquecermos o que fomos, perdemos a ideia do que somos”. E é verdade. A prova está em Angola.

No prefácio da mesma obra, o escritor Manuel Rui refere a pretensão de uns tantos “que se olvide, se apague pelo falso ou imposto esquecimento”, uma “dívida a uma cabala a que se chama processo de paz”. E acrescenta: “Para que o silêncio cumplicitado fosse o único testemunho de continuar a guerra. Da morte. Da fome. Do milionarismo de novos senhores – antigos camaradas...”

O escritor conclui da seguinte forma: “Estou a falar sobre estas memórias, sobre algo que não se pode apagar, esquecer, nem tão pouco morrer ou deixar matar. Falo da nossa memória. Da memória de cada um e da memória de nós todos como entidade colectiva que nos permite, de uma vez por todas, afirmar que temos uma identidade construída a partir de todas as memórias nossas que se compactam numa só palavra: Angola”.

Esse pensamento deveria correr pelas veias dos dirigentes do MPLA, porque lhes cabe a responsabilidade histórica da preservação do legado histórico dos angolanos. Nesse passado, como vimos, o próprio colonialismo não foi assim tão feroz como nós próprios fomos contra nós mesmos e até evoluiu nos últimos anos da sua presença em Angola.

A direcção do partido no poder não deve, pois, passar por cima desse passado e adoptar uma postura igual à da avestruz ‘enterrando’ a cabeça na areia. Precisa de fazer melhor leitura das mudanças impostas pelo tempo para não arrastar o País para o abismo, como está a fazê-lo. A saída para os nossos problemas não pode nem deve ser a repressão, sob pena de se estar a fomentar nos jovens de agora, o mesmo sentimento de revolta que animou os nacionalistas que se opuseram ao colonialismo.

Este MPLA, assemelha-se a um computador atingido por um vírus, que eliminou os ficheiros com os arquivos do nosso e do seu próprio passado. É só somar erros atrás de erros. Deviam perguntar-se o que teria sido deles se a justiça colonial tivesse actuado com tanto maquiavelismo como têm feito? Provavelmente, não teriam visto a independência.

Enfim... Os tempos estão cada vez mais difíceis para a sua gestão, e devemos estar preparados porque certamente a repressão sobre todos os que pensam diferente aumentará, confirmando-se assim que quem diz que nos libertou, hoje nos oprime. Mas tudo tem o seu timing. Um dia, por força de Deus, do Destino ou da História, tal como o colonialismo, este poder também será julgado.
Ramiro Aleixo


Angola-Connection.net